Quão tolo de minha parte seria dizer
que eu esperei?
Nunca é uma época do ano fácil pra mim.
Parece que desde 1994 sempre serei lembrado deste fato.
Esse ano, assim como há 22 anos atrás, o dia 2 caiu num sábado.
Lembro claramente de estar empolgado com a modesta comemoração.
3 vizinhos, 2 amigos da escola.
Um bolo e um filme de terror.
Tudo simples, tudo parecia delicioso.
Acordei cedo como de costume nesse dia de tão incontida que era a empolgação.
Como sempre, meus pais haviam saído pra caminhar.
Até este dia a relação era razoavelmente pacífica.
Não houveram conflitos ou nada que tivesse me colocado pra baixo nunca.
Até este dia.
Estava na sala os esperando.
Escutei o elevador subindo e sabia que eram eles.
O silêncio era quebrado desde a pequena cabine que subia.
Os gritos já preenchiam o ar desde o térreo.
Quando me aproximo da porta, sou surpreendido pela violência.
Os olhos irados de meu pai, de um modo, até então eu nunca houvera conhecido.
Sem entender nada eu ouvi as palavras:
"E é tudo culpa deste filho da puta. Pode cancelar tudo, não vai ter aniversário coisa nenhuma."
Nunca entendi o por quê.
E essa simples frase me matou, pois ela representa o marco zero da destruição do meu ego.
Sem relutância e sem entender nada, a festa foi cancelada.
Minha mãe sempre teve um medo incontrolável de meu pai e seguiu à risca o desejo dele.
Anos depois eu perguntei a meu pai o que houve nesse dia, mas ele nunca soube responder.
Diz ele que nem se lembra disso.
3 semanas depois, meus amigos foram chamados, tivemos uma comemoração. Mas daquele dia em diante nada mais foi o mesmo.
Essa rotina de receber gritos súbitos sem saber nem entender a razão só se intensificou.
Insultos, acusações, ameaças....
Em janeiro de 97, disse meu pai que ia embora de casa e que a culpa era toda minha.
Assim foi em 99, em 2001, 2002...
Assim foi dito que eu deveria me matar, pois de adubo ao menos eu serviria de alguma coisa.
Assim foi dito que a razão de ele ser uma pessoa infeliz era eu.
Até hoje me desconserto ao ouvir gritos.
Até hoje eu odeio conflitos e brigas por conta desde 2 de abril de 1994.
22 anos se passaram.
Mas as marcas ficaram.
Eu perdi o gosto na celebração, simplesmente não fazia mais sentido.
Parei de dizer aos outros que dia é meu aniversário. E tento fingir que é um dia normal.
Mas sabe a tolice que eu mencionei no começo?
Pois é. Eu espero.
De algum modo eu espero que alguém vá se lembrar. Vá me tirar de casa e vá me fazer sentir especial de algum modo.
Do mesmo modo que, secretamente anseio para que alguém um dia descubra isso.
Por ser uma pessoa offline, quase ninguém se lembrou, o que é natural. Acredito que ninguém faça isso por mal, é simplesmente por força das circunstâncias e da modernidade intrínseca que prejudica nossas memórias.
Me iludi novamente. Claro. Algumas pessoas se lembraram e isso significa o MUNDO pra mim.
Cancelei todas as aulas do dia e passei em minha cama. Introspecto e aguardando. Aguardando por algum choque, pela surpresa que tanto anseio.
Não veio. Tal como Geography do maudlin of the Well, dormi em meu aniversário e chorei. Chorei, baby.
Mas já passaram essas 24 horas. Sem presentes, sem lembranças, sem muita vida.
Hoje dia 3, vamos seguir em frente.
Como prometi, sendo o mais caloroso que posso. Transbordando com o que tenho de melhor, meu amor incondicional. Sem defesas, sem muros...
E o melhor de meus sorrisos.
Por amor... Puro amor...
Abraço e amo a vida tal qual ela se manifesta a mim.
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