sábado, 19 de agosto de 2017

Um ano depois cá retornamos.

Ninguém ainda descobriu esse santuário de palavras.

Escrevo destemido o que jaz em minhas entranhas.

Ainda naquela tola esperança de quem lança uma garrafa ao mar com um bilhetinho dentro.

Relendo estes textos pela primeira vez em um ano percebo que algumas coisas mudaram.

Outras nem tanto.

Esse frio na barriga todos os dias, esse medo que tenta me paralisar.

Me impedir de ser uma pessoa funcional.

Hoje eu percebo que apesar desse medo e desse frio, eu consigo.

Essa dor, que só eu entendo, não é o suficiente pra me parar.

Dolorido, quebrado, destroçado eu ando. Tento.

Novas feridas, andando todos os dias na corda bamba.

Mas tento.

Faço o mais difícil, quase sempre.

Saio da cama.

Entro no carro.

Trabalho.

Estudo.

Tento.

Procuro a minha felicidade.

Tento ajudar aqueles que posso.

Mesmo destruído.

Insuficiente, inadequado.

Mas sou eu.

Devo seguir.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Obrigado a você
por me lembrar novamente de meu lugar.
Prometo tentar não esquecer de mais essa lição.

Tudo que amamos deixamos para trás, não é?

domingo, 3 de abril de 2016

Aniversário

Quão tolo de minha parte seria dizer
que eu esperei?

Nunca é uma época do ano fácil pra mim.
Parece que desde 1994 sempre serei lembrado deste fato.

Esse ano, assim como há 22 anos atrás, o dia 2 caiu num sábado.

Lembro claramente de estar empolgado com a modesta comemoração.
3 vizinhos, 2 amigos da escola.
Um bolo e um filme de terror.

Tudo simples, tudo parecia delicioso.
Acordei cedo como de costume nesse dia de tão incontida que era a empolgação.

Como sempre, meus pais haviam saído pra caminhar.
Até este dia a relação era razoavelmente pacífica.

Não houveram conflitos ou nada que tivesse me colocado pra baixo nunca.
Até este dia.

Estava na sala os esperando.

Escutei o elevador subindo e sabia que eram eles.

O silêncio era quebrado desde a pequena cabine que subia.

Os gritos já preenchiam o ar desde o térreo.

Quando me aproximo da porta, sou surpreendido pela violência.

Os olhos irados de meu pai, de um modo, até então eu nunca houvera conhecido.

Sem entender nada eu ouvi as palavras:

"E é tudo culpa deste filho da puta. Pode cancelar tudo, não vai ter aniversário coisa nenhuma."

Nunca entendi o por quê.

E essa simples frase me matou, pois ela representa o marco zero da destruição do meu ego.

Sem relutância e sem entender nada, a festa foi cancelada.

Minha mãe sempre teve um medo incontrolável de meu pai e seguiu à risca o desejo dele.

Anos depois eu perguntei a meu pai o que houve nesse dia, mas ele nunca soube responder.

Diz ele que nem se lembra disso.

3 semanas depois, meus amigos foram chamados, tivemos uma comemoração. Mas daquele dia em diante nada mais foi o mesmo.

Essa rotina de receber gritos súbitos sem saber nem entender a razão só se intensificou.

Insultos, acusações, ameaças....

Em janeiro de 97, disse meu pai que ia embora de casa e que a culpa era toda minha.

Assim foi em 99, em 2001, 2002...

Assim foi dito que eu deveria me matar, pois de adubo ao menos eu serviria de alguma coisa.

Assim foi dito que a razão de ele ser uma pessoa infeliz era eu.

Até hoje me desconserto ao ouvir gritos.

Até hoje eu odeio conflitos e brigas por conta desde 2 de abril de 1994.

22 anos se passaram.

Mas as marcas ficaram.

Eu perdi o gosto na celebração, simplesmente não fazia mais sentido.

Parei de dizer aos outros que dia é meu aniversário. E tento fingir que é um dia normal.

Mas sabe a tolice que eu mencionei no começo?

Pois é. Eu espero.

De algum modo eu espero que alguém vá se lembrar. Vá me tirar de casa e vá me fazer sentir especial de algum modo.

Do mesmo modo que, secretamente anseio para que alguém um dia descubra isso.

Por ser uma pessoa offline, quase ninguém se lembrou, o que é natural. Acredito que ninguém faça isso por mal, é simplesmente por força das circunstâncias e da modernidade intrínseca que prejudica nossas memórias.

Me iludi novamente. Claro. Algumas pessoas se lembraram e isso significa o MUNDO pra mim.

Cancelei todas as aulas do dia e passei em minha cama. Introspecto e aguardando. Aguardando por algum choque, pela surpresa que tanto anseio.


Não veio. Tal como Geography do maudlin of the Well, dormi em meu aniversário e chorei. Chorei, baby.

Mas já passaram essas 24 horas.  Sem presentes, sem lembranças, sem muita vida.

Hoje dia 3, vamos seguir em frente.

Como prometi, sendo o mais caloroso que posso. Transbordando com o que tenho de melhor, meu amor incondicional. Sem defesas, sem muros...

E o melhor de meus sorrisos.

Por amor... Puro amor...

Abraço e amo a vida tal qual ela se manifesta a mim.



Sempre entendo tudo errado.

Projeções irreais, expectativas entram no caminho.

Junte isso com a depressão e a ansiedade e temos uma bomba relógio.

Facilmente me perco nos Meus sonhos. O mundo dentro de minha cabeça sempre parece mais interessante e sedutor do que o que acontece aqui fora.

A vida é aleatória e não temos controle sobre nada que se passa fora dos frágeis confins de nosso ser.

Quando me deparo com algo que se aproxima do que costumo sonhar, tudo parece entrar subitamente em ordem. Como se houvesse um caminho reto e iluminado ao qual é simplesmente impossível de se desviar.

Receio. Reluto um pouco. Busco alguma confirmação e logo depois sigo, como o bom ariano que sou.

Nasce aí a expectativa. Os frágeis indícios de que os sonhos se realizarão. Caminho confiante em direção a esta luz.

Nesta caminhada eu sinto o calor, sinto a aceitação que tanto busco. A ilusão de me sentir menos deslocado nesse mundo.

Fecho os olhos e consigo sentir a brisa do mar. O frescor e o cheiro de sal. Sal que vai cicatrizar as feridas.

E depois, o que acontece?

Os castelos de areia desmoronam, o vento e as ondas derrubam minha engenharia sonhadora.

O vento se distancia como uma onda retornando ao mar, deixando ali apenas as memórias desses sonhos umedecidas pelo beijo oceânico.

Somente me recolho.
E volto a reconstruir.
Na esperança de dias melhores.
De um tempo que pareça mais ajustado.





sábado, 2 de abril de 2016

Pg.99 - The Lonely Waltz Of Leonard Cohen







Last week I could not believe what I would see the tears rolled down softly. Nudged down the stairs oh so sadly. We could steal the truth to never be seen. One stair. Two stairs. Three stairs go spiraling. At best a cracked head will stop your smiling. Playful blood streams trickling and smirking. At the bottom of a stairwell I saw you. I swear... One stair. Two stairs. Three stairs go spiraling. Waiting...I'm waiting...
Reticências

Sentada em um canto
te percebo ali deslocada
cheia de vida e de perguntas sem resposta

...

entusiasmada, porém receosa
aberta, mas hesitante.
O mais doce dos sorrisos

...

Eu.
Ensanguentado, mas ainda de pé.
Uma fortaleza decadente
de ossos, sangue e músculos.
Umedecida pelas lágrimas.

...

Aproximamos, despretensiosamente.
Descobrimos.
Diminuímos nossos abismos.
Abaixamos nossos escudos.
Derrubamos nossos muros.

Te mostro meu mundo.
Recebo o seu.

Eu me vejo em você, como se estivesse olhando em um espelho.

Abraçamos o desconhecido.
Flutuamos acima do chão.
Percebemos a imensidão de nossas dores.
Descobrimos.
Vemos o futuro.
Arrumamos a mesa e fazemos nossa cama.
...

Minha voz te enche de certeza.
Por meio das palavras podemos praticamente sentir
o toque um do outro.
Sonhamos acordados e em vigília
Em nossos pensamentos nos abraçamos
o Transe do vindouro.

...

Diante desses planos
Da realidade que subitamente parece tão concreta.
Nos assustamos com a intensidade desse movimento.
E...
Tão rapidamente quanto nos aproximamos.
Nos afastamos.

...

Tantas certezas, mas deslocadas.
Talvez não seja esse o momento.
Aquilo que não tem nome.
As portas escancaradas agora entreabertas.

Damos passos atrás. Recuamos
E lentamente vamos soltando nossas mãos.
Sopramos nossos beijos de despedida
Confusos e atordoados.
mas compreendemos.
Aceitamos e abraçamos, como sempre fizemos.
Essas momentâneas reticências...

...

Agradecemos e honramos
os doces e breves momentos.
Reconfiguremos.
Readaptemos.
Aprendamos mais.

Abracemos estas reticências.
Tudo há de se encaixar...
Desconhecemos as razões do destino
mas amemos a vida conforme ela se manifesta
perante nosso vislumbre.

E sabemos que um dia.
Limparemos a poeira da mesa e serviremos o jantar.
e na febre de nossa intensidade
desfaremos a cama
e com nosso suor e lágrimas
nos entrelaçaremos como sonhamos juntos.

...

Com as estrelas que tanto ama como testemunha
Tudo será certeza.
Eu sei.
Você sabe.
Juntos saberemos.





sexta-feira, 1 de abril de 2016

Uma cruz pesada demais pra ser carregada.

Ele não é mais o homem que eu conheci
Não há sinal de vida em seus olhos
Os sorrisos fáceis já se foram há muito tempo
enterrados nessa sombra escura

Eu sei que é mais fácil culpá-lo
por tudo aquilo que deu errado.

Cavando um buraco em sua alma
Ele perdeu todo o contato com esse mundo

Cinzas em seus lábios ele saboreia.
De uma beleza que jaz
Não há mais solução
Não há mais razão pra viver

No meio de toda a imundície
lambendo o sangue e a lama de suas feridas
nós nos purificamos
por sua dor nós encontramos a paz